quinta-feira, 9 de junho de 2016

Roubada relíquia de João Paulo 2º de catedral na Alemanha


Relicário em Colônia foi danificado para possibilitar furto de pedaço de tecido contendo sangue do papa canonizado em 2013. Decano da catedral deplora impiedade do ato, enfatizando prejuízo espiritual.



Foto: Getty Images

Desconhecidos roubaram da catedral da cidade alemã de Colônia uma relíquia do papa João Paulo 2º. Para chegar até o pedaço de tecido contendo um pingo do sangue do pontífice canonizado há três anos, o criminoso teve de quebrar a cápsula de vidro na parte frontal de um relicário afixado à parede. O furto foi notado na manhã deste domingo (05/06) por uma visitante.


O recipiente danificado, localizado na nave transversal norte do templo e medindo cerca de 40 centímetros, é de bronze prateado, adornado por uma escultura de João Paulo 2º apoiado a uma cruz, da autoria do artista Bert Gerresheimer. Trata-se de uma recordação da visita a Colônia, em 1980, do líder da Igreja Católica de 1978 até sua morte, em 2005, aos 84 anos de idade.

O deão da catedral, Gerd Bachner, se disse horrorizado pelo delito. "O valor material é mínimo, muito maior é o prejuízo espiritual." O pontífice nascido na Polônia comoveu o mundo inteiro pela forma como suportou, até o fim, a própria fraqueza física, emitindo uma potente mensagem de dignidade, lembrou o decano.

Assim, o furto da relíquia não é apenas uma demonstração de impiedade, "mas sim um dano a esse grande homem, mesmo após sua morte – e a todos aqueles que procurem esse memorial na Catedral", condenou Bachner.

Este não é o primeiro roubo envolvendo uma relíquia de sangue de João Paulo 2º: em 2014 o relicário de uma pequena igreja próxima a Roma foi profanado com o mesmo fim.

Fonte: Terra

quarta-feira, 8 de junho de 2016

'Capela Sistina' da Idade Média reabre em Roma depois de mil anos soterrada



Vista da basílica Santa Maria Antiqua, reaberta em Roma



DA ANSA10/05/2016

A Basílica Santa María Antigua, considerada a "Capela Sistina da Idade Média", reabriu no Foro Romano, no coração da capital italiana, após passar mil anos soterrada e ser submetida a um longo processo de restauração de três décadas.

Em um testemunho único da arte sacra da Idade Média e centro de afrescos dos séculos 6º ao 8º, a basílica, considerada uma das igrejas romanas mais antigas, foi quase totalmente recuperada –além de soterrada, também foi destruída por um terremoto.

Consagrada no princípio do século 6º, a igreja foi erguida sobre parte do palácio de Diocleciano, três séculos depois de o imperador Constantino 1º, o Grande, converter-se ao cristianismo, com o Édito de Milão de 313.

Composta por três naves, a Santa María Antigua conserva quatro camadas de pinturas sobrepostas durante quase três séculos, em um total de 250 metros quadrados que ocupavam toda a superfície, incluindo as colunas, com ciclos dedicados a santos e a 40 soldados cristãos romanos condenados por sua fé.

Devido a um terremoto ocorrido no ano de 847, a igreja ficou parcialmente destruída e foi enterrada para servir como cimento para a igreja barroca de Santa María Liberadora.

Em 1900, o arqueólogo Giacomo Boni descobriu o oratório da igreja e decidiu derrubar a Santa María Liberadora para ter acesso ao local. Considerada a "Capela Sistina" da Idade Média, a igreja conserva tesouros e relíquias, como um quadro da Virgem Maria.

Fechada por décadas, a igreja foi reaberta neste mês ao público, em uma ocasião única para os peregrinos do Jubileu da Misericórdia, convocado pelo papa Francisco.

Restauro de um "Siqueira" - Portugal




Na noite de 21 de maio, o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, abriu as portas (gratuitamente) ao público. Ao todo, foram 18.442 as pessoas que se deslocaram até às Janelas Verdes, um número inédito até para um organismo como o MNAA, habituado a receber muitas visitas. Desde que a Noite dos Museus se começou a celebrar no interior do antigo Palácio Alvor, não existe registo de uma enchente assim. O número de visitantes era tal que, só a muito custo, é que se conseguia caminhar pelos corredores. “Parecia que se estava no Vaticano, nas filas a andar”, lembrou Teresa Sousa e Moura, conservadora-restauradora do departamento de pintura do museu.

Naquele dia 21, foram muitas as pessoas que se deslocaram até ao MNAA para verem a nova exposição, inaugurada a 18 de maio, “Obras em Reserva”, que mostra um lado do museu que raramente se vê. Mas, para a grande maioria, o motivo da visita era outro. “Onde é que está aquele quadro que temos de ver?”, perguntava-se entre pinturas. O quadro que tinham de ver era A Adoração dos Magos, de Domingos Sequeira.


Em outubro do ano passado, o MNAA lançou uma campanha de angariação de fundos inédita em Portugal para poder comprar A Adoração dos Magos, um quadro que se encontrava na posse dos descendentes do Duque de Palmela e que faz parte de uma série de quatro pinturas religiosas de Domingos Sequeira, um dos nomes maiores da pintura portuguesa do século XIX. O MNAA possui na sua coleção os desenhos preparatórios e finais das quatro telas, mas não as respetivas pinturas a óleo.

A iniciativa gerou um movimento de cidadania “exemplar” em Portugal, como salientou o ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes. Pequenos e graúdos, entidades e particulares, todos se juntaram para colocar o Sequeira “no lugar certo”. E conseguiram. Pixel a pixel, e três dias antes do previsto, o MNAA conseguiu angariar os 600 mil euros necessários para a compra da Adoração dos Magos.Agora, o Sequeira já está no sítio certo, mas sem nenhum sentimento de posse. O quadro já não é de ninguém — é de todos.



O departamento de restauro de pintura fica nas catacumbas do museu. Para lá chegar, é preciso descer escadas e atravessar corredores repletos de estátuas medievais

Muito em breve, A Adoração dos Magos vai ocupar o seu lugar no terceiro piso do museu, rodeado de pinturas de outros mestres portugueses. Mas enquanto isso não acontece, está a ser restaurado nas catacumbas do MNNA por Susana Campos e Teresa Sousa e Moura, duas conservadoras-restauradoras do departamento de pintura que têm a missão de lhe devolver o brilho (e as cores) originais. De bata branca, rodeadas de pinturas portuguesas do século XVI e XVII, as duas não hesitam em admitir que sentem o peso da responsabilidade. A expectativa é grande em volta do Sequeira, e elas sabem disso.
A pressão de restaurar Sequeira

Quando lhe disseram que tinha de restaurar A Adoração dos Magos, Teresa Sousa e Moura disse logo que “sozinha não”. “Queria o apoio de outra pessoa. É um quadro que é de todos, em que toda a gente participou e do qual toda a gente está à espera”, admitiu ao Observador. A ela juntou-se então a colega Susana Campos, “com mais experiência”, que também nunca se esquece que o Sequeira é, afinal, o Sequeira.

“Toda a gente está a acompanhar este processo, porque toda a gente participou para comprar e toda a gente quer saber como é que está. É de todos, e esse pensamento está sempre presente. Marca a diferença nesta pintura, porque toda a gente sente isto. Quando se fala nela, quando se trata dela — tem-se sempre esse pensamento.”

“Quer dizer, a minha avó participou para isto!”, disse por sua vez Teresa, entre risos. “Sente-se o peso. Agora já acho que não, porque no início é como relação amorosa. Vai evoluindo, vai evoluindo até que isto, que é de todos, também se torna nosso. Cria-se uma afinidade, porque nós tocamos, nós mexemos, nós conhecemos os pormenores em primeira mão. Pixel a pixel!”

"O início é como relação amorosa. Vai evoluindo, vai evoluindo até que isto, que é de todos, também se torna nosso. Cria-se uma afinidade, porque nós tocamos, nós mexemos, nós conhecemos os pormenores em primeira mão."
Teresa Sousa e Moura, conservadora-restauradora do MNAA

É por essa relação que criam com todas as pinturas que restauram (e pelo tempo que passam com elas) que Teresa e Susana nunca se esquecem de um quadro que lhes passa pelas mãos. “É que nós vamos ao íntimo do pintor. Pelo menos, é assim que eu sinto…”, admitiu a conservadora-restauradora do MNAA. “Como é que ele pensa, como é que ele sobrepõe as cores, como é que ele faz o desenho de um determinado panejamento, como é que sobrepõe as camadas, as soluções que às vezes dá às coisas…”

Restaurar um quadro é um trabalho moroso. Pode demorar um mês, mas esse mês também se pode transformar num ano ou até em dois. Tudo depende da pintura, do seu estado de conservação e dos restauros de que já foi alvo, que muitas vezes dificultam o processo de limpeza. O trabalho tem de ser feito com cuidado, passo a passo, camada por camada, porque um pequeno erro pode ser fatal. Por isso, antes de começar a limpar, é preciso estudar a pintura. Com A Adoração dos Magos também foi assim.

“Antes, vimos as duas a pintura”, explicou Teresa Sousa e Moura. “Estudámo-la, vimo-la por trás, que é uma coisa muito importante. Tínhamos de ver mais ou menos se tinha tido muitas ou poucas intervenções, e achámos logo que não tinha nada de especial.” Além disso, aperceberam-se que o quadro tinha sido muito bem conservado e que “não tinha um rasgão”. Mas a grande surpresa veio quando o desemolduraram, e se aperceberam que a grade (o suporte onde a tela está esticada) era original e que, muito provavelmente, a pintura nunca foi restaurada.

“O facto de a pintura estar muito original, com poucas intervenções, não é vulgar”, disse Susana Campos. E ainda é menos vulgar quando se trata de um quadro que sempre esteve na posse de um privado, longe das condições ideias de um museu. “Para além disso, a pintura é grande, e as pinturas grandes estão mais sujeitas a rasgões, a pancadas, a algum acidente, a algum dano, que ela não teve. Podia estar em piores condições mas, pelos vistos, esteve sempre num ambiente muito confortável, porque realmente sofreu muito pouco.” E isso só facilita o trabalho.
Para lá da poeira, o céu azul

O trabalho de um restaurador é sempre um trabalho de descoberta. À medida que se vão limpando as diferentes camadas — primeiro a de poeiras e gorduras e depois a de verniz –, vai-se desvendando a pintura original. Depois de limpa a camada “de poluição atmosférica”, vai-se “limpando o verniz, camada sobre camada”. “Conseguimos fazer uma limpeza por camadas, da camada de superfície à camada original”, explicou Susana. A limpeza, química, é sempre feita com solventes orgânicos, feitos em laboratório.


Infografia: Andreia Reisinho Costa

Começa-se sempre “por um cantinho”, por uma zona que, à partida, não será problemática e que não “interfere tanto com a leitura” da obra. “Quer dizer, não íamos começar pela virgem, logo assim”, admitiu Teresa, referindo-se ao quadro de Sequeira. “Começámos por um canto, por um sítio mais recatado para que, se acontecesse qualquer coisa, tivéssemos segurança e margem de manobra para recuar. Depoisvamos arriscando e vamos limpando as cores que nós sabemos que são mais resistentes.”

Essas cores mais resistentes são as mais claras, como o branco. “São as mais estáveis e as mais resistentes”, explicou Susana. “Os vermelhos são, muitas vezes, sensíveis. São cores com as quais vamos ter mais cuidado. Quer dizer, temos cuidado com todas, mas com estas temos cuidados redobrados porque sabemos que são as mais sensíveis. Depois fazemos os testes por cores e vamos um bocadinho aqui, um bocadinho ali. Conforme as zonas que vamos limpando, também vamos escolhendo a zona seguinte e vamos conhecendo a pintura.”

"É uma coisa que se vai fazendo - devagar, lentamente, conhecendo a pintura, olhando, comparando. E também usamos os conhecimentos que já temos da nossa prática ou de outras pinturas que existem do artista."
Susana Campos, conservadora-restauradora do MNAA

Feitas as primeiras experiências, já é possível avançar para a fase seguinte, que é a de remoção completa do verniz. “Já experimentámos bastantes cores –os encarnados, os azuis –, fomos a várias zonas, ao centro, aos cantos, e agora estamos suficientemente à vontade para avançar com a limpeza”, disse Teresa Sousa e Moura. Mas, a verdade, é que não é preciso ir muito mais longe para saberem como é que o quadro vai ficar, apesar de poderem sempre surgir imprevistos. “Já temos uma noção e, é por isso, que nos entusiasmamos bastante quando falamos disto”, admitiu Teresa entre risos. “Já estamos a ver o final, que vai ser espetacular!”

Espetacular e completamente diferente. Os tons amarelos, causados pela sujidade superficial, vão dar lugar a azuis, rosas, vermelhos — cores que, sem o restauro, nunca se notariam. Os pormenores — os mantos brocados, os veludos, as joias, os camelos e a multidão que se desvanece no horizonte — vão-se tornar mais nítidos, e isso já é visível nos pequenos retângulos que as duas conservadoras-restauradoras foram limpando nas últimas duas semanas. “As cores vão mudar muito e vai-se ver o original. Finalmente vai-se ver o original, que estava dissimulado pelas camadas que alteram as cores e os pormenores”, esclareceu Susana Campos.



Susana Campos tem uns óculos "especiais", que permite ver o mais pequeno dos pormenores

Uma vez terminada a limpeza, Teresa e Susana aplicarão uma nova camada de verniz que, para além de ajudar a conservar a pintura, tornará as cores mais saturadas. Mas escolher o verniz certo pode ser uma verdadeira dor de cabeça. Existe pelo menos uma dezena de vernizes disponíveis no mercado, e Teresa e Susana têm podem ainda fabricar um de raiz só para A Adoração dos Magos.

Quando lhes perguntámos se já tinham um favorito, olharam uma para a outra comprometidas. “Estamos ainda a pensar…”, acabou por responder Susana Campos. “Já conversámos sobre o assunto, mas ainda não chegámos à decisão final. Mas acho que vamos decidir com o avançar do tratamento.”

Neste momento, a maior preocupação das conservadoras é encontrar um verniz estável, que não amareleça muito rapidamente. Só que, como A Adoração dos Magos é uma pintura virgem isto é, sem restauros, as opções são muito maiores. “As intervenções provocam irregularidades e diferentes comportamentos na obra, que depois temos de regular. Quando há intervenções diferentes, é mais difícil de atingir esse equilíbrio, e nós não temos esse problema aqui”, explicou Teresa. “Esta pintura é só maravilhas!”, exclamou, rindo-se. “Depois ficamos nos pícaros porque é fácil! Bem, não devia dizer isto…”

"Quando há intervenções diferentes, é mais difícil de atingir esse equilíbrio, e nós não temos esse problema aqui. Esta pintura é só maravilhas!"
Teresa Sousa e Moura, conservadora-restauradora do MNAA

Mas nota-se que estão pela maneira como olham para o quadro — um quadro que é de todos, mas que também é um bocadinho delas. “Isto é um bombom!“, disse Teresa, e Susana concordou.

Apesar de o restauro servir para restituir ao quadro a sua beleza original, este também permitirá uma leitura “mais apurada” e “mais fiel” da Adoração dos Magos. Uma vez restaurado, os conservadores de pintura do museu vão poder olhar para o quadro tal e qual ele era quando Domingos Sequeira o acabou de pintar em 1828 e tirar daí novas conclusões. “Permite um melhor estudo da obra, porque podemos comprar com outras obras dele”, explicou a conservadora. “E dá-nos mais pistas para o conhecimento da técnica pictórica do pintor”, acrescentou Teresa, sem conseguir evitar deixar escapar um “vai ficar lindíssimo!“.
O restauro já não é o que era. E ainda bem

Mas nem todos os quadros são fáceis como o Sequeira. Por vezes, as conservadoras têm de passar longos meses com a mesma pintura, como aconteceu com o tríptico de Pieter Coecke van Aelst, um artista flamengo do século XVI, que o MNAA emprestou em 2013 ao Metropolitan Museum of Art (Met), em Nova Iorque. “O retábulo do van Aelst, que foi para o Met, tinha dois metros por dez de área e teve muitos problemas. Não era um trabalho fácil (há trabalhos mais fáceis do que outros). Era uma peça com muitos restauros antigos, muitos bons até. O problema às vezes na nossa intervenção é os restauros antigos, que este não tem, daí ser um restauro mais fácil e mais rápido nesse aspeto, porque está virgem“, contou Susana.



Susana Campos (à esquerda) e Teresa Sousa e Moura (à direita) ainda têm um mês de trabalho pela frente

“Os restauros antigos levantam muitas questões. Às vezes temos de decidir se vale a pena levantar ou não [deixar à mostra o que restauros antigos taparam], se se justifica e que razões temos para o fazer. Às vezes os restauros até são bons, mas pode haver incompatibilidades de materiais. Há materiais que não são tão estáveis ou que se degradam com o tempo, e nós temos de ponderar todos esses fatores. Às vezes há restauros que alteram o original, e nós temos de saber.”

O tríptico de van Aelst é uma das muitas peças onde os restauradores anteriores decidiram mexer no original. “Havia um repinte de um pé que fazia parte da história daquela pintura. A dada altura acharam que aquele pé devia ser tapado. Nós aqui no museu trabalhamos com imagens divulgadas, estudadas”, salientou Teresa. “Que fazem parte da história!”, completou Susana, acrescentando que “divulgar uma coisa que foi feita há muitos anos é uma decisão que não se toma de ânimo leve”. “Não é uma decisão individual, da Teresa ou da Susana. Ou da Teresa e da Susana. É uma decisão que tem sempre de passar por outras pessoas, neste caso dos conservadores de pintura.”

Isto acontecia porque, antigamente, os restauradores não tinham a formação que têm hoje. Muitos deles eram pintores, que achavam que tinham alguma liberdade artística. “Antigamente, as coisas eram feitas de forma empírica e, como os restauros eram feitos por pintores, se fosse preciso inventar, inventavam. E se achavam que não era bem aquilo, alteravam”, disse Susana. “Os critérios e os concertos do que é conservação e restauro não são os de hoje.”

"Antigamente, as coisas eram feitas de forma empírica e, como os restauros eram feitos por pintores, se fosse preciso inventar, inventavam. E se achavam que não era bem aquilo, alteravam."
Susana Campos, conservadora-restauradora do MNAA

“A nossa formação é na área das ciência, temos física até. É muito importante. E depois há uma série de métodos de exame e análise física e química, o estudo dos materiais e das técnicas. O que faz um conservador-restaurador atualizado é isso, e isso faz muita diferença”, explicou Teresa. Além disso, dentro da conservação e restauro existem várias especializações, porque cada peça é cada peça e os materiais usados são diferentes. “Temos de os conhecer bem”, concluiu Susana Campos.

“Nós aqui no museu fazemos mais conservação do que restauro. ‘Conservar’ é conservar os materiais que existem, mexendo o menos possível”, acrescentou por fim Teresa. Se o restauro do Sequeira tivesse acontecido noutros tempos, a tela tinha sido logo separada da grade original, apesar de esta estar ainda em boas condições. Uma operação que, por si só, é extremamente violenta para a pintura, realizada num suporte que por si só é frágil. No MNAA é diferente — a intervenção é sempre a mínima possível.

Teresa Sousa e Moura e Susana Campos ainda têm um mês de trabalho pela frente, mas estão ansiosas por ver o resultado final e por saber a opinião de todos os que contribuíram para a compra do Sequeira. Estão a tocar nos “pixeis que são de muitos”, e sentem esse privilégio. Mas uma coisa é certa — nunca se esquecerão da Adoração dos Magos, por mais anos que passem. Porque, afinal, “quase todas as pinturas marcam”, como garantiu Susana. “Umas por umas coisas, outras por outras — mas todas marcam.”

Fotografia de Patrícia Amaral
Texto de Rita Cipriano, grafismo de Andreia Reisinho Costa.

Fonte: Observador

terça-feira, 7 de junho de 2016

IGREJA DE NOSSA SENHORA DA GLÓRIA DO OUTEIRO – RIO DE JANEIRO, RJ

retirado do blog: Patrimônio Espiritual

O Outeiro da Glória chamava-se antigamente ‘Morro do Leripe’, e ficava muito próximo do local onde ocorreu a Batalha de Uruçumirim, um confronto ocorrido no ano de 1567 entre portugueses, franceses, e índios aliados de ambas as partes. Na ocasião, saíram vitoriosos os portugueses e seus aliados – os índios teminimós, que eram liderados pelo cacique Araribóia – e ficaram derrotados os franceses e os índios tamoios. Na mesma ocasião, o líder português Estácio de Sá foi ferido com uma flechada no rosto, motivo pelo qual veio a falecer dias depois. Porém, não obstante sua morte, o embate deu resultado e encerrou definitivamente o domínio francês na região.

Foi em uma gruta nesse ‘Morro do Leripe’ que, no ano de 1608, alguns devotos passaram a venerar a Virgem Maria sob a invocação de ‘Nossa Senhora da Glória‘ – possivelmente em alusão aos fatos anteriormente ocorridos nesse local.

Décadas depois (ano de 1670), um português chamado Antônio Caminha edificou uma pequena ermida sobre o topo daquele outeiro, e junto dela construiu também algumas dependências, onde passou a morar de forma reclusa. No local também havia instalações destinadas a abrigar peregrinos que para lá se dirigiam, a fim de pagar promessas e rezar novenas, e consta que o mencionado Antônio Caminha permaneceu servindo devotamente no local por mais de quarenta anos, como uma espécie de ermitão.

Mais ou menos no início do século XVIII a doação de um terreno mais amplo por parte do capitão Cláudio Gurgel do Amaral permitiu uma campanha de reedificação da igreja – a ermida primitiva era feita de madeira e argila, e pretendia-se então fazer uma construção mais resistente, de pedra. No documento de doação ele menciona expressamente a Irmandade de Nossa Senhora da Glória, motivo pelo qual se infere que provavelmente já estaria constituída nessa época (muito embora o reconhecimento canônico ocorresse alguns anos mais tarde, em 1739).

Estima-se que a reconstrução da igreja tenha se iniciado entre 1714 e 1720. O projeto ficou a cargo de um militar, o Tenente-Coronel José Cardoso Ramalho, que havia sido nomeado por D. João V como Capitão de Infantaria da Capitania do Rio de Janeiro. Esse arquiteto projetou a igreja de uma forma bastante original, adotando características de edificações militares.

A título de ilustração, pode-se ver abaixo duas telas de Nicolas-Antoine Taunay retratando o outeiro e a igreja, de acordo com o aspecto do local em fins do século XVIII e início do século XIX.




A planta é constituída de dois prismas octogonais entrelaçados – em um formato semelhante a algumas fortificações da época – possuindo uma torre central, com um alpendre antes da portada principal. A escoadura das calhas, em formato de pequenos canhões, e a parte anterior da torre, em forma de guarita, também remetem ao estilo de fortificação.







Internamente a igreja é inteiramente circundada de azulejos, inclusive na sacristia, e seus três altares são esculpidos em cedro, sem verniz nem pintura.

Após a vinda de Dom Joao VI para o Brasil, dois de seus filhos lá foram batizados – Dona Maria da Glória e Dom Pedro I – e a partir da independência do país a irmandade foi alçada ao status de imperial, título que conserva até hoje. Atualmente, descendentes da Princesa Isabel permanecem fazendo parte dos quadros dessa confraria, participando de ofícios e determinadas festas.




Abaixo, a imagem da padroeira, Nossa Senhora da Glória.



Na primeira metade do século XX, durante o frenesi de ‘modernização’ do Rio, foi realizado um gigantesco aterro na região, o que fez com que o mar ficasse recuado em cerca de duzentos metros em relação à sua posição original. Na foto abaixo, tirada antes do aterramento (festa de inauguração da estátua de Pedro Álvares Cabral, no ano de 1900), pode-se ter uma noção de até onde chegavam as águas.



Não obstante as numerosas alterações ocorridas no entorno, é inegável que essa graciosa igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro continua sendo um dos mais belos cartões postais do Brasil.



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REFERÊNCIAS:

ALENCAR, José de. O Ermitão da Glória. In Alfarrábios. Rio de Janeiro, 1873. Obra em domínio público. Disponível em: http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/_documents/0006-01373.html.

– BAZIN, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tome II, Paris: Librairie Plon, 1958

– CARVALHO, Benjamim de A., Igrejas Barrocas do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A., 1961

CERQUEIRA, Bruno da Silva Antunes de, Outeiro da Glória e Glória do Outeiro: brevíssima história de uma das mais antigas e importantes confrarias marianas do Brasil. Disponível em: http://outeirodagloria.org.br/historia/historia-irmandade-cerqueira/

-Dornelles Facó, Anne (coord.), Guia das Igrejas Históricas da Cidade do Rio de Janeiro, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Especial de Projetos Especiais, 1997

-TELLES, Augusto C. da Silva. Nossa Senhora da Glória do Outeiro. Rio de Janeiro: Agir Editora, 1969.

-TIRAPELLI, Percival, Igrejas Barrocas do Brasil, São Paulo: Metalivros, 2008

Site oficial: www.outeirodagloria.org.br

domingo, 5 de junho de 2016

Os Virtuosos do Invisível - A Imagem de Deus na História da Arte

Abertas as inscrições para o Segundo Semestre


Apresentação 

O Deus único e irrepresentável inspirou toda sorte de imagens ao longo dos séculos, efêmeras ou duradouras, legítimas ou fraudulentas. Até hoje, a questão da representação do Divino na Arte é litigiosa e recebeu respostas variadas e contraditórias de uma época para outra.
Diante dessa realidade, o Curso de Extensão Os Virtuosos do Invisível – A Imagem de Deus na História da Arte promove o aprimoramento do conhecimento da relação entre Arte e Religião, auxiliando na sedimentação de análises teóricas que possibilitem aos interessados em Artes Plásticas desenvolverem novos meios para o trabalho da representação do divino no processo secular da cultura humanista.

Objetivo

Fundamentar uma nova percepção de beleza artística, nos limites de uma metodologia histórica, com vistas a identificar sinais de uma realidade invisível presente no cotidiano social (igrejas, museus, exposições públicas, monumentos históricos).

Público-Alvo

Estudiosos e profissionais de Artes Plásticas - historiadores da Arte, artistas, restauradores, colecionadores, críticos de Arte; estudiosos de Ciências Sociais, Filosofia, Teologia, História e Ciências da Religião.

Professores em Destaque
 

Prof. Dr. Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Ponde

Graduado em Filosofia Pura (1990), mestre em História da Filosofia Contemporânea (1993) e doutor em Filosofia Moderna (1997) pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorado em Epistemologia (2000) pela University of Tel Aviv. Professor assistente na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCS-SP) e professor titular na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Ciências da Religião e Filosofia da Religião, atuando principalmente nos seguintes temas: religião, mística, santidade, angústia, modernidade/pós-modernidade e epistemologia.Saiba mais

Profa. Dra. Wilma Steagall De Tommaso

Doutora em Ciências da Religião (2013) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), com a tese O Pantocrator de Claúdio Pastro: Importância e atualidade. Participa do grupo de pesquisa NEMES/PUC-SP. Possui experiência nas áreas de Educação e Filosofia, com ênfase em Arte Sacra. Saiba mais

Fonte: PUC - SP

Juiz proíbe artista de fazer esculturas de santos inspiradas na cultura pop

Ana Smile retratava ícones como Superman e Minnie em peças, em GO.
Ela diz que recorrerá e reclama da decisão: 'Não quis agredir a fé de ninguém'.

Por Sílvio Túlio Do G1 GO

Entenda o caso aqui


Jesus é retratado como Superman e Maria, como a Galinha Pintadinha (Foto: Reprodução/Facebook)

O juiz Abílio Wolney Aires Neto, da 9ª Vara Cível de Goiânia, proibiu a artista Ana Paula Dornelas Guimarães de Lima, conhecida como Ana Smile, de 32 anos, de fazer e vender esculturas de santos da Igreja Católica inspirados na cultura pop. Dentre os personagens retratados em seu trabalho estão Superman, Batman, Minnie, Malévola e Galinha Pintadinha. A artista disse ao G1que vai recorrer da decisão.

O magistrado estipulou uma multa de R$ 50 mil em caso de descumprimento. A ação foi proposta pela Arquidiocese de Goiânia alegando que Ana faz "sátira" com os personagens religiosos. A artista também deve, conforme a decisão, excluir os perfis "Santa Blasfêmia" do Facebook e do Instagram, onde comercializava seus produtos.

Em nota, a Arquidiocese de Goiânia diz que "a autora extrapolou, deliberadamente, o seu direito constitucional de livre manifestação de pensamento, ferindo o também direito constitucional da Igreja Católica, de inviolabilidade de consciência e crença".

Ainda de acordo com o comunicado, além das estatuetas, as postagens em redes sociais sobre elas "ofendem a coletividade, violando o sentimento religioso, ao empregar escárnio, sátira e ironia".

Ana diz que não entende o motivo da decisão. Ela salienta que o intuito ao fazer as esculturas não era atingir qualquer religião e que as peças são apenas fruto "de um trabalho ligado à arte pop".

"Nunca quis agredir a fé de ninguém. É uma coisa para quem gosta de algo diferente. Sou de família católica e todos me apoiam, gostam do que eu faço e têm exemplares em casa. Minha avó, inclusive, que não sai da igreja, não viu problema", disse.

Uma assessoria jurídica já foi contratada por ela e deve entrar com um recurso tentando reverter a decisão na próxima semana.

Meme originou ideia
As esculturas começaram a ser feitas há três anos depois que Ana viu um meme na internet e se apaixonou pela ideia. Na foto, Batman carregava Robin no colo ao estilo das imagens sacras.

"Achei aquilo sensacional, me encantou. Revirei a internet e não encontrei uma para comprar. Então resolvi fazer eu mesma. Fui a uma fábrica de gesso, pintei e postei. Vários amigos e conhecidos começaram a me pedir", lembra.

No meio do ano passado, ela começou a lucrar com o serviço, que se tornou sua principal fonte de renda. Cada estátua custava entre R$ 230 a R$ 390.
Peças criadas pela artista estão com a venda proibida (Foto: Reprodução/Facebook)

Desde que soube da decisão, ela parou toda produção. Disse que, enquanto não consegue derrubar a liminar, vai obedecer a ordem que a impede de comercializar os objetos. Ela também já deletou as contas das redes sociais nas quais anunciava os enfeites, também seguindo a determinação.

"Está tudo parado. Um ponto que a justiça não percebeu é que estão cerceando meu trabalho e a possibilidade de obter minha fonte de renda", lamenta.

Justificativa
Para embasar seu posicionamento, o juiz evocou leis que versam sobre liberdade de expressão e de crença, afirmando que ambas são garantidas a todos sem distinção. Porém, alertou que é preciso intervir quando ambas se chocam.

"Embora os direitos e garantias fundamentais estejam na mesma ordem, sem hierarquia ou primazia de um sobre o outro, quando houver conflito entre eles, deve prevalecer o direito à dignidade pessoal, à honra e à vida privada", relatou Aires Neto.

Fonte: G1

sábado, 4 de junho de 2016

Igreja mais antiga de BH é interditada

texto de
Carlos Eduardo Cherem
Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte02/06/201618h07


Divulgação/Prefeitura de Belo Horizonte


Capela Nossa Senhora do Rosário, em Belo Horizonte

Mais antiga edificação religiosa em Belo Horizonte (MG), com 118 anos de idade, a Capela Nossa Senhora do Rosário, na confluência da avenida Amazonas com ruas São Paulo e Tamoios, área central da capital mineira, foi fechada nesta quinta-feira (2) por tempo indeterminado devido ao risco de desabamento do teto.

De acordo com a Arquidiocese de Belo Horizonte, a igreja vai passar por obras para restauração do teto, mas ainda não há estimativas de quanto será investido na restauração.

A arquidiocese também informou que já acompanhava a situação de deterioração do telhado e, assim, ela própria acionou a Coordenadoria Municipal de Defesa Civil para fazer a verificação das condições. Técnicos do órgão fizeram uma vistoria e confirmaram a existência de risco para a estrutura, recomendando a interdição do templo.

A Capela Nossa Senhora do Rosário foi inaugurada em setembro de 1897, três meses antes das solenidades de inauguração de Belo Horizonte. Sua arquitetura com traços de clássico, gótico e barroco. A estimativa é de que 2 mil pessoas frequentem a diariamente a igreja, que tem capacidade para 170 pessoas sentadas.


Ainda de acordo com a assessoria da arquidiocese, já existem estudos prontos para iniciar as obras de escoramento do telhado. Só depois disso é que vão começar as intervenções para a restauração da estrutura.

A capela é tombada pelo patrimônio artístico e histórico do município, o que exige o acompanhamento dos órgãos da área cultural e de patrimônio para qualquer modificação que seja necessária. Ainda não há prazo para a conclusão dos serviços.

Segundo nota da instituição, "as providências necessárias para preservar a integridade dos fiéis e salvaguarda do patrimônio histórico, cultural e artístico de Belo Horizonte estão sendo prioritariamente adotadas".

Com o fechamento da Capela Nossa Senhora do Rosário, estão canceladas as duas missas diárias, 11h e 18h30, e as três nos sábados e domingos, 11h, 17h e 18h30. Também estão canceladas as confissões, que ocorriam diariamente no local.

Fonte: UOL
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