quarta-feira, 15 de junho de 2016

Patrimônio preservado: restauro revela as pinturas originais na Matriz de Santo Antônio, em Itatiaia

Por Defender




Por trás de várias camadas de repintura, traços leves, elegantes e com motivos florais foram revelados, durante o trabalho de restauro.


A proteção ao patrimônio da comunidade é uma das frentes de atuação dos Bem-Te-Vis/Foto: Reprodução

Em processo de restauro de seus bens integrados desde dezembro de 2014, a Igreja Matriz de Santo Antônio, em Itatiaia (Ouro Branco), tem se revelado aos olhos dos profissionais. Sob muitas camadas de tinta, a pintura original tem surgido e enchido de alegria a comunidade, que aguarda, ansiosa, a finalização das obras. O responsável pelo restauro, Gilson Ribeiro, conta que elementos artísticos da capela primitiva, construída em pau-a-pique na primeira metade do século XVIII, podem ter sido reaproveitados na montagem dos retábulos colaterais da nova nave, da segunda metade daquele século. Assim, pinturas do primeiro templo surgiram em locais diferentes, no verso de tábuas ou como apoio da estrutura do altar.

“No retábulo do Senhor dos Passos encontramos arabescos em tom bege sobre vermelho e verde nas colunas. Esse tratamento é identificado como imitação de embutidos, técnica que na Europa é realizada com mármore”, explica Gilson Ribeiro. Ele conta que, ao desmontar o retábulo lateral de Sant’Ana e retirar o excesso de sujidades acumuladas, duas tábuas apresentaram pinturas que, provavelmente, faziam parte do conjunto decorativo da capela primitiva. “Encontramos, ainda, na banqueta do retábulo-mor, três fragmentos com pintura. Para nossa surpresa, quando juntamos as peças, elas formaram uma figura humana”, completa.


A restauração revela a riqueza das pinturas internas originais/Foto:Gilson Ribeiro / Reprodução

Wilton Fernandes, coordenador de projetos da Associação Sócio Cultural Os Bem-Te-Vis, responsável pelo projeto de restauro, salienta que as descobertas têm valor incalculável. “É uma alegria poder participar da preservação de um monumento de suma importância para a comunidade local e até mesmo nacional. Está sendo uma emoção enorme a cada notícia das descobertas das pinturas escondidas embaixo de várias camadas de tinta”, enfatiza. A comunidade acompanha o trabalho e está ansiosa para ver a igreja voltar ao seu antigo esplendor.

Quem cresceu em Itatiaia e lembra da Matriz antes de sofrer com as intempéries por ter ficado, por três anos, sem telhado, está ansioso para que a primeira missa, após a finalização do restauro, aconteça. Wilton pondera que as gerações futuras estão sendo contempladas no processo de restauro. A equipe de Gilson Ribeiro já realizou duas oficinas de educação patrimonial com as crianças da comunidade, para ensinar os processos de douramento e as técnicas de restauro. “O restauro é um projeto que visa, também, as gerações futuras. Elas vão se responsabilizar pelo bem, mais ainda se aprenderem a amar e a cuidar do patrimônio”, completa.

História


Trabalho minucioso de restaurador revela as pintura originais da igreja/Foto:Gilson Ribeiro / Reprodução

Em 1994, a Matriz de Santo Antônio de Itatiaia sofreu um furto e teve parte de seu acervo de esculturas furtados. Após esse fato, a comunidade decidiu tomar a frente no processo de proteção dos bens da igreja. Em 2008, a Associação Sócio Cultural Os Bem-Te-Vis executou o projeto Luminotécnico da Matriz e, entre as ações realizadas, foi instalado um sistema de segurança e também de proteção contra incêndios. A proteção ao patrimônio da comunidade é uma das frentes de atuação dos Bem-Te-Vis.

Matriz de Santo Antônio

A Matriz de Itatiaia foi construída na primeira metade do século XVIII por iniciativa das irmandades do Santíssimo Sacramento, Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e São Benedito. Apresenta duas etapas distintas de construção. A parte dos fundos do templo (capela-mor e corredores laterais) foi executada em estrutura de madeira com vedação de pau-a-pique e aparenta ser a primitiva capela original. A ela foram acrescidas, posteriormente, a atual nave, as torres e o frontão, em pedra. (Fonte: Iphan).


Elementos artísticos estão sendo restaurados: exemplo de proteção cultural/Foto:Gilson Ribeiro / Reprodução

Durante o início da década de 1980, a matriz ficou exposta às intempéries climáticas, que acabaram por danificar os altares laterais e colaterais da nave e o forro, que foi perdido. O trabalho de restauro dos bens integrados da Matriz de Santo Antônio é realizado pela Associação Sócio Cultural Os Bem-Te-Vis, em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, e com o apoio Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), do Ministério da Cultura (MinC) e do Governo Federal. O projeto prevê a recuperação do interior da construção, contemplando elementos artísticos como retábulos, púlpito, arco-cruzeiro, balaustrada da nave e pia batismal. Também estão contempladas a reforma do assoalho, a instalação de câmeras de segurança, a laminação do telhado e a restauração do acervo de imaginárias.
Fonte original da notícia: Correio do Minas

Patrimônio em ruínas: Igreja de Bom Jesus de Matozinhos, em Piranga (MG), conta com a sorte para permanecer em pé


Por Defender




Um dos mais importantes e expressivos templos barrocos de Minas corre risco eminente. A estrutura está comprometida, telhado danificado e estado de deterioração está em avançado estágio e já compromete a obra. As pinturas internas, atribuídas ao Manuel da Costa Ataíde, mais conhecido como Mestre Ataíde, estão descaracterizando devido a infiltrações. A situação geral é comprometedora e intervenções urgentes são necessárias ao imóvel do século XVIII.

A Igreja de Bom Jesus do Matozinhos, situada no distrito de Santo Antônio do Pirapetinga, mais conhecido como Bacalhau, fica na parte mais alta do município, cercado por inúmeras montanhas e matas nativas. O local chama atenção pela rara beleza cultural, histórica e natural.

Preocupada com a degradação do patrimônio histórico, representantes da Secretaria Municipal de Cultura estiveram no final de fevereiro, em Belo Horizonte, com os técnicos IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) onde expuseram a situação da Igreja e entregaram um dossiê alertando sobre restauro urgente do exemplar barroco.



Segundo Kelly Dutra, que presta assessoria a prefeitura de Piranga na área cultural, a Igreja do Bacalhau é um bem tombado pelo IPHAN e desde a reunião a prefeitura aguarda um retorno. “Por ser um bem cujo tombamento é de responsabilidade do IPHAN (Federal), outros órgãos, tais como o Estado e a Prefeitura ficam limitados ao acompanhamento do IPHAN para quaisquer ações. Até mesmo a comunidade local, que poderia fazer alguma ação fica nessa limitação de ter um acompanhamento do IPHAN”, disse.

Segundo ela foi sugerido a contratação de um profissional para escorar as paredes da igreja, mas a iniciativa depende também de decisão e acompanhamento do IPHAN. Kelly explicou que as novas mudanças no Governo Federal também atrasam quaisquer ação, uma vez que mudam pessoas de lugar o que acaba acarretando uma alterações em toda a estrutura do órgão e na sua política de proteção ao patrimônio cultural. Ela contou que as lideranças comunitárias também alertam sobre a situação e estão bastante preocupados com o bem histórico.



Kelly disse a nossa reportagem que ainda não existe projeto de restauro. “Outro problema é o valor para restaurar a Igreja. Somente os projetos devem ficar na casa de R$1 milhão, por que envolve equipe multidisciplinar de profissionais muito especializados. Isso sem contar a execução. Esse é outro problema que precisa da ajuda do Governo Federal. As obras no forro têm indicativos de serem do Mestre Athayde, isso faz com que o restauro seja muito mais especifico e minucioso”, informou. Segundo ela, as obras de reforma e restauro podem passar de mais de R$ 15 milhões.

Enquanto as decisões não saem dos gabinetes o patrimônio histórico pede socorro e a Igreja de Bom Jesus de Matozinhos conta com a sorte para permanecer em pé!

A lenda de Bacalhau, romeiros e sua história

Implantado sobre uma colina e composto pela igreja e um conjunto de casas baixas destinadas a abrigar romeiros nas épocas de festas, numa disposição que segue a tradição arquitetônica das capelas portuguesas de peregrinação devotada ao Senhor Bom Jesus de Matozinhos. Assim pode ser descrito o Santuário do Senhor Bom Jesus do Matozinhos, construído no Distrito de Bacalhau.

A cidade de Piranga está localizada a 170 km de Belo Horizonte. É composta por dois distritos: Santo Antônio do Pirapetinga e Pinheiros Altos. Localizado a 12 km da cidade, o distrito de Santo Antônio do Pirapetinga, mais conhecido como Bacalhau, fica na parte mais alta do município, cercado por inúmeras montanhas da Zona da Mata.

Para os apreciadores de roteiros religiosos, Bacalhau é uma parada obrigatória. O distrito contempla inúmeras igrejas datadas do século XVII e XVIII, entre elas o Santuário do Senhor do Bom Jesus de Matozinhos que foi tombado pelo IPHAN em 1996.



Entre 1ª a 15 agosto aconteceu o Jubileu de Bom Jesus de Matozinhos, tradição que chega a 205 anos e arrasta multidões de fieis ao lugarejo.

Curiosidade

Segundo uma lenda local, a capela foi construída após a descoberta da imagem do Senhor Morto, no sítio onde hoje se localiza a igreja. Por diversas vezes a população tentou guardá-la em outras igrejas da região, mas a imagem sempre voltava ao lugar em que apareceu pela primeira vez. Independente da lenda, o passeio é imperdível!

Fonte original da notícia: Correio de Minas

terça-feira, 14 de junho de 2016

O que nos faz Paulistinhas

O Museu de Arte Sacra promove uma palestra gratuita sobre o tema "O que nos faz Paulistinhas: Reflexões sobre o estilo e possíveis tecnologias utilizadas", com o artista plástico Magela Borbagatto.


A palestra leva ao participante informações básicas sobre o estilo dessas imagens religiosas do universo popular, existente entre o final do século 18 ao início do 20, pelas mãos de Dito Pituba. Relata a pesquisa feita em Estremoz/Portugal, cidade tradicional na produção artesanal de santos, presépios e figuras de barro desde o século 17, onde encontramos imagens muito semelhantes às Paulistinhas. A trajetória da produção em Estremoz é bastante parecida com a trajetória dessa imaginária no Vale do Paraíba. É, portanto, um encontro com essa arte religiosa popular, singela, desprovida de arroubos estéticos e fiel aos seus antigos donos: os caboclos.
PALESTRANTE
Magela Borbagatto: artista plástico autodidata, especializado em figuras populares de barro, com ênfase na pesquisa do fazer e do saber popular utilizados nas Paulistinhas. Em 2013 foi reconhecido pelo MinC como Mestre da Cultura Popular Brasileira, e em 2015 foi escolhido para realizar pesquisa em Portugal, acerca da origem do estilo Paulistinha.

Quando: 25/06 (sábado)
Horário: 10h às 12h
Gratuita - VAGAS LIMITADAS
Inscrições: preencha e envie o formulário de inscrição
Informações: (11) 5627.5393 | mfatima@museuartesacra.org.br
Local: Museu de Arte Sacra de São Paulo
Endereço: Av. Tiradentes, 676 - Luz | Metrô Tiradentes
Estacionamento gratuito: Rua Jorge Miranda, 43
O museu emitirá certificado de participação.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Encontro para professores: Desenhança


Museu de Arte Sacra promove um Encontro para professores sobre o tema "Desenhança: a linguagem do desenho para a compreensão estética", que explora o acervo e o edifício colonial do museu a partir da realização de exercícios de desenho por meio dos quais os professores serão instigados a observar a construção de artefatos (tridimensionais e bidimensionais) em diferentes momentos da história. Pretende-se com este encontro fornecer subsídios aos professores para trabalharem a linguagem do desenho em sala de aula.
Quando: 25/06
Horário: 10h às 18h
Atividade Gratuita
Informações: educativo@museuartesacra.org.br
Inscrições:  educativo@museuartesacra.org.br ou preencha e envie o formulário de inscrição
Local: Museu de Arte Sacra de São Paulo
Endereço: Av. Tiradentes, 676 - Luz | Metrô Tiradentes
Estacionamento gratuito: Rua Jorge Miranda, 43
Os participantes receberão certificado.

domingo, 12 de junho de 2016

Curso de verano: Imágenes, símbolos y modelos en la pintura del Barroco (Madri - Espanha)

Curso de verano II

Los Cursos de Verano son una modalidad especial de los programas universitarios que viene desarrollando el Museo Thyssen-Bornemisza con las Fundaciones Universitarias con las que tiene firmados convenios de colaboración.
Imágenes, símbolos y modelos en la pintura del Barroco
El curso se propone abordar la diversidad, complejidad o cosmopolitismo de las manifestaciones artísticas del Barroco. El análisis de la pintura barroca nos acercará a la sensualidad, al misticismo, al clasicismo o naturalismo que tiene su reflejo en las obras para el poder político o religioso de las obras de estos momentos. No estarán ausentes temas como la transmisión de modelos, los intercambios artísticos, el trabajo de los talleres o el viaje de los artistas. El curso se cerrará con un acercamiento a la difusión y dispersión de la pintura barroca a través del comercio o de las colecciones de los museos sin olvidar su incidencia en la colección Thyssen-Bornemisza así como en su proyección en la obra de artistas contemporáneos.
Directora / Mª Dolores Antigüedad del Castillo-Olivares.
Co-directora / Ana Moreno Rebordinos.
Programa
Miércoles 13 de julio

9.30 h. / Inauguración del curso
10.00 h. / La estela de Caravaggio: Paises Bajos y Francia
Mar Borobia / Museo Thyssen-Bornemisza
11.00h. / Pausa
12.30 h. / La santidad en la pintura barroca española: la mortificación y el martirio como "exemplum"
Benito Navarrete / Universidad de Alcalá
13.00 h. / La pintura barroca
Ponente por confirmar
14.00 h./ Pausa
16.00-18.30 h. Visitas comentadas*
 
Jueves 14 de julio
10.00 h. / Tras el lienzo: obradores de pintura de la Sevilla Barroca
Fernando Quiles / Universidad Pablo de Olavide
11.00 h. / Pausa
11.30 h. / Murillo: espacios para la narración
Alicia Cámara / UNED
13.00 h./ Rincón de una biblioteca y otras representaciones de la lectura
Victoria Soto /  UNED
14.00 h. / Pausa
16.00-18.30 h. / Visitas comentadas*
 
Viernes 15 de julio 
10.00 h. / Colecciones y museos: la difusión y dispersión de la pintura barroca
María Dolores Antigüedad  / UNED
11.00 h. / Pausa
11.30 h. / La fortuna crítica de Ribera
Amaya Alzaga / UNED
13.00 h./ La expresión artística y la gramática de la mística
Ana Moreno / Museo Thyssen-Bornemisza
14.00 h./ Clausura y entrega de diplomas
16.00 -18.30 h. / Visita libre a la exposición temporal Caravaggio y los pintores del Norte (horario por confirmar)
*El programa puede sufrir algunas modificaciones.
Notas importantes
¿A quién va dirigido? Estudiantes y docentes de Historia del Arte, Historia, Humanidades, Bellas Artes, Turismo y etc. así como al público interesado por la Historia del Arte y los museos.
Calendario / 13, 14 y 15 de julio de 2016.
Horario / De 10.00 a 18.30 h. (Salón de Actos y salas del Museo Thyssen-Bornemisza). 
Matricula / Desde el mes de junio - (consultar tabla de precios UNED)
Becas / Los alumnos de la UNED que deseen solicitar una beca de asistencia a este curso deberán hacerlo a través del correo educathyssen@museothyssen.org, adjuntando un breve currículum. La Fundación ACS dotará a este curso con 10 becas a alumnos de la UNED matriculados en el curso 2014-2015. Cada beca dará derecho al reintegro de la matrícula en la modalidad que corresponda al alumno, según los precios oficiales de la XXV Edición de Cursos de Verano de la UNED.

sábado, 11 de junho de 2016

QUAL A IGREJA MAIS ANTIGA DO RIO DE JANEIRO?




Igreja de São Sebastião em foto de Augusto Malta de 1921 obtida na Biblioteca Nacional Digital



Claro que as primeiras igrejas do Rio foram a Igreja de São Sebastião (1583), nossa primeira catedral, e a Igreja de Santo Inácio (1585) do antigo Colégio dos Jesuítas, no alto do Morro do Castelo, desaparecidas em 1922 com o arrasamento do morro. Mas o que queremos saber é qual das igrejas hoje existentes é a mais antiga. No caso das igrejas "urbanas" (levando em conta que a zona urbana na época colonial se restringia ao Centro atual e alguns bairros adjacentes, o resto constituindo arrabaldes), como da Glória ou Candelária, sabemos a data exata de seus projetos e construção, mas no caso das capelas e igrejinhas rurais, construídas nas fazendas e engenhos de nossa outrora imensa zona rural hoje urbanizada, as suas origens se perdem nas brumas da história.



Igreja dos jesuítas no Morro do Castelo em foto sem indicação de autor ou data obtida na Biblioteca Nacional Digital



É o caso da Igreja do Salvador dos Homens, em “Ilha” de Guaratiba, em estilo “colonial”, de pedra e cal, tombada pelo IPHAN em 1938, que no Guia dos Bens Tombados consta ser datada de 1856, mas que, pelo seu “aspecto” antigo, muitos atribuem a uma época bem anterior. Por exemplo, no site da Arquidiocese de São Sebastião lemos, em 15/8/14, uma notícia de uma missa de ação de graças marcando “os 338 anos de fundação da igreja Salvador do Mundo [o que faz com que a igreja seja de 1676], em Ilha de Guaratiba” e noPortal Geo Rio da Prefeitura carioca consta que a igreja é de 1773.


Outra dificuldade é que muitas capelas e igrejas sofreram sucessivas reformas ou até reconstruções de modo que a igreja que vemos hoje não é a mesma que existia originalmente no local. É o caso da Igreja de Nossa Senhora da Lampadosa, diante da qual Tiradentes fez suas últimas preces antes de enfrentar a forca, mas que exibe um estilo neocolonial típico dos anos 1930, ou seja, a igreja neocolonial de hoje não é a mesma pela qual Tiradentes passou. Houve uma reconstrução.

As igrejas desse primeiro século e meio de existência de nossa cidade normalmente seguem o estilo maneirista (renascentista português tardio) com fachada austera contrastando com a exuberância da talha barroca interna, frontão triangular, contraste entre a cantaria (trabalho em pedra) e o paramento branco de alvenaria, predominante, torres com bulbos piramidais ou curvos, nave única retangular (com exceções) e número reduzido de vãos (aberturas de portas, janelas etc.) na parede.

Dito isto, vamos tentar arrolar, com ajuda de várias fontes (entre as quais destaco o alentado estudo de Sandra Alvim, Arquitetura religiosa colonial no Rio de Janeiro, publicado pela UFRJ), as igrejas hoje existentes supostamente construídas nos séculos XVI (se é que restou alguma) e XVII em ordem cronológica na medida do possível, já que imprecisões nas datações e nos históricos das igrejas (as reformas sofridas, etc.) impossibilitam uma cronologia garantidamente certa pela qual possamos pôr a mão no fogo. E no final ainda teremos um extra: conselhos do veterano historiador Nireu Cavalcanti para jovens historiadores que queiram desvendar as dúvidas e perplexidades aqui relatadas em torno da datação das capelas e igrejas.

Do Quinhentismo possivelmente resta apenas uma igreja:

1- IGREJA DE NOSSA SENHORA DE BONSUCESSO




Se você olhar para a Igreja de Nossa Senhora De Bonsucesso (antiga Igreja da Misericórdia - foto acima) perceberá (i) que ela está encaixada no prédio antigo, original, da Santa Casa da Misericórdia, cuja construção começou ainda no século XVI (terminando no XVIII) e (ii) sob a torre sineira barroca com seus pináculos e cruz superior jaz uma igreja maneirista, baixinha, de frontão triangular como era típico da época, possivelmente construída noséculo XVI — portanto contemporânea das igrejas do Morro do Castelo. Ou seja, na grande reforma de 1780 não se demoliu a igreja original para construir uma nova do zero, mas a ela se acrescentou um “puxadinho”, que é a torre sineira superior com seus adornos. Segundo Alexei Bueno, antigo diretor do INEPAC (em correspondência particular com o editor deste blog), “não creio que ela tenha sido demolida, apenas alterada. A sineira e as molduras da porta e das duas janelas são do século XVIII, a decoração interior é tardia, do XIX, mas do frontão triangular para baixo, tirando isso, deve ser tudo do século XVI, contemporâneo das igrejas do Castelo. Não haveria o menor cabimento em demolir as quatro paredes em alvenaria de pedra de um templo entre dois prédios já existentes, é óbvio”.

Esta igreja é abordada em mais detalhes na postagem IGREJAS HISTÓRICAS DO CENTRO DO RIO (Parte 2.1): IGREJA DE NOSSA SENHORA DO BONSUCESSO que você pode ler clicando aqui.

Do Seiscentismo consegui arrolar onze igrejas e capelas:


2- IGREJA DE NOSSA SENHORA DA APRESENTAÇÃO (Irajá)





A julgar pela data que lemos na base da moldura da janela central (1613 - foto acima), esta poderia ser a igreja mais antiga da Cidade Maravilhosa. Acontece que as fontes (Guia da Arquitetura Colonial, Neoclássica e Romântica no Rio de Janeiro, Guia do Patrimônio Cultural Carioca, a obra clássica de Brasil Gerson e a obra citada de Sandra Alvim) são unânimes em datar a igreja atualmente existente como sendo do início do século XVIII. Por exemplo, na História das Ruas do Rio (pág. 382) diz Gerson: “A Freguesia do Irajá foi criada em 1644 [...] Para Irajá foi o Padre Gaspar da Costa, construtor da sua Igreja de N. S. da Apresentação com sete altares [...] No raiar do século seguinte [séc. XVIII], o Padre João Machado substituiu-a por outra, que é a atual [...]”

Nessa reconstrução teriam reaproveitado a pedra com a data da igreja anterior? Consultei o ex-diretor do INEPAC Alexei Bueno. Diz ele: “A torre é tipicamente do século XVII, o frontão triangular também está em pleno acordo. Talvez as vergas da porta e das janelas tenham sido alteradas no século seguinte, mas não tenho maiores dúvidas de que a igreja é mesmo dessa data [1613].” Portanto, incluo esta igreja como segunda da lista, mas não podemos botar a mão no fogo de que seja realmente tão antiga assim. Fica uma ponta de dúvida.

Tombada por decreto municipal de 1994.







3- IGREJA DO CONVENTO DE SANTO ANTÔNIO (Centro)




Conjunto colonial do Largo da carioca em gravura de 1845 obtida na Biblioteca Nacional Digital: à esquerda o convento, no centro a igreja conventual e à direita a Igreja de São Francisco da Penitência.


Já no início do século XVIII os frades franciscanos se estabeleceram noMorro de Santo Antônio, onde ergueram sua casa conventual provisória (substituída na segunda metade do séc. XVIII pelo convento que vemos hoje em dia) e a igreja, construída entre 1608, data da colocação da pedra fundamental, e 1620 (ou 1615 segundo Vivaldo Coaracy), embora sofresse reformas e restaurações posteriores.

Na reforma dos anos 1920 o frontão triangular maneirista original (que você vê na gravura acima) foi substituído por um frontão neocolonial (que é o aspecto da igreja que todos nós nos acostumamos a ver no decorrer de nossas vidas), mas recentemente tentou-se restaurar o aspecto original (fica nas entrelinhas a dúvida de se essa tentativa foi totalmente bem-sucedida). AIgreja do Convento de Santo Antônio é descrita em mais detalhes neste blog na postagem IGREJAS HISTÓRICAS DO CENTRO DO RIO (Parte 2.5): IGREJA DO CONVENTO DE SANTO ANTÔNIO & IGREJA DE SÃO FRANCISCO DA PENITÊNCIA. Para ir até lá (numa janela separada) cliqueaqui.


Tombada pelo IPHAN em 1938.




Frontão neocolonial



Frontão maneirista original (mal?) restaurado

4- CAPELA DE NOSSA SENHORA DA CABEÇA (Jardim Botânico)







Uma relíquia carioca: capelinha rural construída no início do séc. XVII no então Engenho d'El Rei, "talvez [...] o nosso mais antigo templo religioso a manter sua configuração arquitetônica original" (Paulo Bastos Cezar, Capela de Nossa Senhora da Cabeça). O engenho existia desde o último quartel do Quinhentismo, de modo que a capela é antiga mesmo. Atualmente situa-se nos terrenos da Casa Maternal Mello Mattos (final da Rua Faro) e se você pedir ao porteiro ele deixa você visitar. Segundo Sandra Alvim, “é de pequenas dimensões, como as que pertenciam, na época, às casas-grandes. Seu valor arquitetônico está na sua implantação em primoroso adro e na bela proporção do conjunto. Muito pouco alterada, é um exemplo do alto nível formal e do requinte construtivo de uma capela rural doméstica dessa época.” Diz ainda Sandra: “A Capela da Cabeça é comparável [...] à de São Miguel, em São Paulo, de 1622 [...]. Esta última, considerada por Carlos Lemos a mais antiga do país, pode ser contemporânea à da Cabeça.”

Tombada pelo IPHAN em 1965 e por decreto municipal de 2004.



5- IGREJA DE SÃO GONÇALO DO AMARANTE (Camorim)




Segundo o site do INEPAC, a igreja de São Gonçalo do Amarante foi construída em 1625, no Engenho do Camorim, por seu proprietário Gonçalo de Sá. Em 1667, sua filha Vitória de Sá doou a igreja ao mosteiro de São Bento. De grande valor histórico e arquitetônico, é uma das mais antigas relíquias da zona rural do Rio de Janeiro. Nas primeiras décadas do século XVIII sofreu algumas modificações, a mais importante ocorrida entre 1795-1800, alterando seu volume e o espaço interno com a elevação do telhado da nave. No início do século XX, estando a igreja em ruínas, a arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro realizou uma ampla reforma e assumiu as atividades pastorais e religiosas. Em meados do século entrou em declínio, ficando fechada entre 1972 e 1990. No período de 1996 a 1999 foram executadas obras de restauração por iniciativa da comunidade, com a supervisão do INEPAC, dirigido na época por Alexei Bueno.


Tombada pelo INEPAC em 1965.
6- IGREJA DE NOSSA SENHORA DO DESTERRO (Pedra de Guaratiba)





Diz Sandra Alvim em Arquitetura religiosa colonial no Rio de Janeiro (pág. 85): “A Igreja do Desterro, provavelmente de 1628, passou por diversas obras que alteraram sua planta e sua fachada. Recuperada no final do século XVII e em meados do XVIII por frei Francisto Quintanilha, sofreu no início do Oitocentos a grande reforma que a descaracterizou e foi responsável por sua aparência atual, época em que o teto foi pintado, as talhas do altar e do coro refeitas e a fachada revestida de azulejos.” Até que ponto a igreja que vemos hoje é aquela erguida em 1628? Eis a questão.



Tombada pelo IPHAN em 1938.


7- IGREJA DE NOSSA SENHORA DE MONSERRATE DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO (Centro)



Os beneditinos chegaram no Rio de Janeiro em 1589 e em 1590 obtiveram uma sesmaria no outeiro que mais tarde ficou conhecido como Morro de São Bento, onde já existia uma capela, ao lado da qual começaram a construir o mosteiro. Em 1617 desenhou-se a planta de uma igreja nova, construída de1633 a 1642. Novas ampliações e reformas no conjunto (mosteiro e igreja) nos séculos XVII e XVIII deram-lhe a feição que vemos hoje.


A fachada austera da igreja, em estilo maneirista (renascentista português tardio), contrasta com a exuberância da talha barroca interna. A igreja é descrita em mais detalhes neste blog na página Mosteiro de São Bento.


Tombada pelo IPHAN em 1938.




Mosteiro de São Bento e torre da Igreja de N.S, de Monserrate vistos, em meio à modernidade, ao pôr do sol, da Ilha das Cobras

8- IGREJA DA ORDEM TERCEIRA DE SÃO FRANCISCO DA PENITÊNCIA (Centro)



Vista lateral aérea da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência de Augusto Malta, sem indicação de data, obtida na Biblioteca Nacional Digital

Trata-se da primeira igreja de uma ordem terceira — ou seja, uma ordem de leigos, não de monges ou monjas — construída na cidade. Diz o site do IPHAN: “Em 1619 foi fundada a Ordem Terceira da Penitência, pelo português Luís de Figueiredo e sua mulher, e em 1620 já se encontrava pronta a Capela da Conceição, localizada perpendicularmente ao lado direito da igreja conventual. A igreja da Ordem Terceira foi iniciada em 1653, construída paralelamente à Igreja conventual, também pelo lado direito, mas por causa de desavenças na Irmandade, somente a partir de 1726 as obras se aceleraram, e no ano de 1773 foi inaugurada.” Portanto, conquanto a construção começasse em meados do Seiscentismo, não podemos dizer propriamente que a igreja que vemos hoje seja do século XVII. A fachada, com suas linhas onduladas no frontão, vergas, sobrevergas e portada, tem aspecto antes barroco (séc. XVIII) do que maneirista (séc. XVII).

A igreja é abordada em mais detalhes em IGREJAS HISTÓRICAS DO CENTRO DO RIO (Parte 2.5): IGREJA DO CONVENTO DE SANTO ANTÔNIO & IGREJA DE SÃO FRANCISCO DA PENITÊNCIA que você pode ler clicando aqui.


Tombada pelo IPHAN em 1938.


9- IGREJA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO (Ilha do Governador)



No site do INEPAC lemos: “A igreja de Nossa Senhora da Conceição foi construída em pedra e cal, no Engenho de Salvador Correia de Sá e aparece citada no auto de medição das terras da Ilha do Governador, de 30 de março de 1662. Em 1816 a igreja sofreu sua primeira reforma, que acrescentou a ala esquerda, como mostra a inscrição na fachada. Durante o século XX, ocorreram outras reformas, sendo mais drástica a que resultou na união das três naves sob uma laje de concreto armado. No período de agosto de 1999 a abril de 2000, foi realizada a restauração que devolveu as feições originais ao altar-mor.”


Tombada pelo INEPAC em 1966.


10- CAPELA DE SÃO ROQUE (Paquetá)




A Capela de São Roque foi construída no finalzinho do séc. XVII (em 1698segundo o Guia do patrimônio cultural carioca) nas terras da Fazenda de São Roque. O santo padroeiro dos proprietários da fazenda passou a ser também o dos habitantes da ilha. Até então a comunidade da ilha tinha de ir de barco até Magé a fim de participar de cultos religiosos.


Tombada por decreto municipal de 1999.


11- CAPELA DE SÃO JOSÉ (Ilha das Cobras)




Capela de São José embutida na estrutura do HCM, Ilha das Cobras

A Ilha das Cobras, no Centro do Rio, hoje propriedade da Marinha, pertenceu originalmente aos monges beneditinos que ali construíram uma capela em algum ponto na virada do séc. XVII para o XVIII. A capela acabou sendo incorporada ao (ou melhor, embutida no) Hospital Central da Marinha posteriormente ali erguido e internamente descaracterizada, hoje restando da capela original apenas a fachada. A capela foi tema da postagem TESOUROS HISTÓRICOS NA ILHA DAS COBRAS: CELA DE TIRADENTES & FORTALEZA E CAPELA DE SÃO JOSÉ que você pode ler clicando aqui.


Tombada pelo IPHAN em 1955.


12- IGREJA DE SANTO ANTÔNIO DA BICA (Barra de Guaratiba)




Originalmente uma capela rural de uma antiga casa de fazenda que deu origem ao Sítio Santo Antônio da Bica, comprado pelo paisagista Roberto Burle Marx, que restaurou a casa e capela e reuniu no sítio sua coleção de plantas nativas e exóticas usadas em seus projetos paisagísticos. De composição singela, com frontão triangular e modenatura [=conjunto de elementos ornamentais, principalmente frisos e molduras, que definem a composição da fachada] simples, pode ter sido construída já no séc. XVII.
O sítio (incluindo a capela) foi tombado pelo INEPAC em 1988.



QUAL A IGREJA MAIS ANTIGA DO RIO DE JANEIRO?
Tentemos agora responder à pergunta que dá título à postagem. Considerando-se apenas seu núcleo maneirista original e abstraindo os acréscimos barrocos do Setecentismo, a IGREJA DE NOSSA SENHORA DE BONSUCESSO é a mais antiga da cidade. Se a IGREJA DE NOSSA SENHORA DA APRESENTAÇÃO for mesmo de 1613 fica em segundo lugar. Depois vem aIGREJA DO CONVENTO DE SANTO ANTÔNIO cuja construção original estendeu-se de 1608 a 1620. Se a CAPELA DE NOSSA SENHORA DA CABEÇAjá existia em 1622, como conjectura Sandra Alvim, fica em quarto lugar. Em seguida vêm a IGREJA DE SÃO GONÇALO DO AMARANTE, de 1625, e aIGREJA DE NOSSA SENHORA DO DESTERRO, de 1628.



ANEXO
Para o jovem historiador que queira deslindar os mistérios da datação das velhas igrejas e capelas aqui estão os conselhos do veterano historiador Nireu Cavalcanti:



Você está diante de um enigma, muito comum na “história” de nossa cidade.


A pesquisa, nesse caso, deve ser feita na relação de sesmarias dadas no século XVII, na região (basicamente no Arquivo Nacional); nos livros antigos do Pizarro (Memórias Históricas do Rio de Janeiro), de Baltazar da Silva Lisboa (Annais do Rio de Janeiro) e, no recente, Geografia Histórica do Rio de Janeiro, do Maurício Abreu.


A fonte iconográfica era pouco usada por esses antigos escritores, principalmente mapas, pela formação da maioria deles (médicos, advogados, jornalistas etc.). No Arquivo Nacional tem a Carta Cadastral de 1874, de todo o território do município do Rio de Janeiro. Nesses mapas vem marcado todas as construções existentes nessas fazendas.


Também, no Arquivo do Estado do RJ (Praia de Botafogo) tem a documentação de TERRAS (1854) feita pelos párocos das freguesias, e mapas.


A análise tipológica/arquitetônica sugere semelhanças a outros exemplares e a períodos. Agora, com a difusão da arqueologia, podemos nos aproximar melhor do período de construção.

Enfim ... é procurar agulha no palheiro: em arquivos desorganizados (a maioria dos nosso) e nos textos cheios de equívocos que grassam a historiografia carioca.

Por  Ivo Korytowski 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

O quebra-cabeça de Da Vinci: como foi a restauração de obra-prima que levou 20 anos


Em 1999, uma pequena equipe de especialistas, liderada pela conhecida restauradora de arte italiana Pinin Brambilla, concluiu a enorme tarefa de restaurar a obra-prima de Leonardo da Vinci, "A Última Ceia".

Da Vinci foi contratado para pintar a cena em uma parede do convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão, em 1498. Mas, por causa da má escolha de materiais, a tinta começou a desbotar ainda durante a vida do artista.

A restauração de Brambilla envolveu a retirada de cinco camadas de tinta de restaurações anteriores e a recuperação de aspectos originais da pintura.

O trabalho exaustivo de limpeza, secagem e repintura do afresco de 4 metros e 30 centímetros de altura custou milhões de dólares e levou mais de 20 anos.

Hoje na casa dos 90 anos de idade, Pinin Brambilla, que ainda atua em seu estúdio em Milão, contou à BBC sobre esse trabalho de amor que consumiu metade de sua vida profissional.

Fonte: BBC Brasil
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